Sabe aquela frase do Lavoisier?
“Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
Na verdade quem falou isso foi Mikhail Lomonossov. Tá, a frase é do Lavoisier, mas o principio da conservação da massa foi descrita 14 anos antes por esse russo que entre outras coisas era um gambiarrista de primeira, foi o primeiro a construir o protótipo funcional de um helicóptero. Isso mostra como as palavras certas podem sedimentar uma ideia e transmiti-la através do tempo.
Na linguagem, as palavras seguem o mesmo princípio da frase do Lalá sobre a lei do Lolô, elas se modificam, se unem ou se separam, em suma, elas se adaptam ao uso. O estudo dessas modificações e a história por trás de cada palavra tem o nome de etimologia, do grego étimo = verdadeiro. Então vamos em busca do real significado de gambiarra.
Se você ainda tiver um dicionário juntando poeira em sua estante, vá lá na letra G e procure pela palavra alvo de nosso estudo, ou não vai encontrar nada ou se for na versão online, e menos empoeirada, do dicionário Michaelis irá se deparar com algo desse tipo:
gambiarra
gam.bi.ar.ra
sf 1 Teat Ribalta de luzes na parte anterior e superior dos palcos. 2 Serviço elétrico malfeito, especialmente com a finalidade de obter energia elétrica de maneira ilegal.
Feio né? No mínimo pobre. Se depender dos dicionários os burros estão órfãos. Não sei você, mas acho inadmissível na tal era da informação uma palavra tão atinga e que todo mundo sabe o significado, ainda ser desprezada pelos estudiosos da área.
Já na Wikipédia, esse verbete tem bem mais informações sobre o assunto, isso porque a maior das wikis(essa também não tem no dicionário) é a mais completa enciclopédia da humanidade, mesmo que seu professor chato de metodologia não a considere uma fonte confiável. Até lá a questão etimológica é descrita como contraditória e duvidosa, sendo assim vamos estudar um pouco.
Gambiarra veio de Portugal, não surgiu aqui, mas no Brasil aprendeu a ter jogo de cintura, lá no além-mar é usada para designar luzes da ribalta, ou aquele varal de lâmpadas usadas em festas ao ar livre.
Nossa língua nasceu do latim, mas a filha mais velha e que mais puxou ao pai é a italiana, nela temos as palavras “gambi” que seria a tradução de haste, caule, suporte; e “gambe” que por sua vez significa perna. Já o sufixo “-arra” serve como aumentativo pejorativo, assim gambiarra vem a ser algo como pernada ou suporte improvisado.
Aqui nos trópicos foi ganhando essa conotação de algo feio, tosco, mal feito, visto que as primeiras aparições dessa palavra estão registradas nas críticas teatrais, mencionando a precária iluminação das nossas casas de espetáculos no início do século XIX.
Com o tempo as palavras podem ganhar ou perder valor, por exemplo a palavra parasita que hoje nos causa asco, na verdade, remota do grego “comer ao lado”. Aqui queremos justamente o oposto, colocar a gambiarra no seu devido lugar, se por um lado pode representar algo feito sem o devido cuidado, por outro temos que reconhecer o seu valor inventivo quando os recursos são escassos.

